quinta-feira, 21 de outubro de 2010

A comunicação é o que realmente importa

Rosa Alegria, Novae, 23 de dezembro, 2004

Os desafios dessa nossa época não têm precedentes na história da humanidade. Nunca antes estivemos à beira do colapso planetário. Estamos ficando assustados pelas ameaças ecológicas à nossa biosfera e inconformados pelas injustiças humanas. Epidemias “econômicas” passaram a ameaçar o bem comum de toda a população mundial, dando tudo para poucos, e quase nada para muitos.
Estamos assistindo com os olhos vidrados de perplexidade à desconstrução de velhas verdades e ao rompimento de antigos paradigmas reinantes durante pelo menos sete séculos. Mirando o espelho das novas realidades do século 21, está mais do que provado: dinheiro não é riqueza, consumo não é felicidade e informação não é conhecimento.
Não poderíamos ingressar nesse terceiro milênio de forma mais instigadora. É só lembrar: na apoteose das festividades do ano 2000, nossos ouvidos estiveram atentos às passagens musicais e aos ruidosos fogos de artifício. Na seqüência desse repertório festivo, acordamos no início do século com o ensurdecedor bater de asas de grandes fortunas. Depois do anoitecer, o colapso da bolha e o avesso da realidade da Internet que levou a economia mundial a uma prolongada recessão. Virando as páginas do calendário para 2001, o pesadelo do 11 de Setembro e logo em seguida, os escândalos corporativos Enron, Andersen e falcatruas correlatas. Para coroar as marcas indeléveis desse marcante início de século, fomos testemunhas da estupidez quase inesperada dos poderes mundiais com a guerra do Iraque.
Com toda essa dinâmica delineando o nosso futuro, que podemos esperar para as futuras gerações? Mais do que esperar, é preciso fazer. E fazer - não como sempre se fez – a passos largos e lentos, mas com o sentido de urgência que esse momento histórico exige.
Nossa inteligência evolucionária nunca foi tão testada. Vamos sucumbir às profecias e previsões ou dar um salto em nossa consciência coletiva no resgate de um mundo perdido com o qual temos tanto sonhado?
Nesse ponto decisivo da civilização humana todas as ações corretivas e construtivas são válidas, mas não são suficientes! É preciso acelerar o passo, é preciso correr contra o próprio tempo para responder com a velocidade necessária para mudar essa situação. Acredito sim na responsabilidade social crescente, me comovo com o crescimento dos movimentos civis em sua inquietação com relação aos desmandos institucionais e distorções do poder, me empolgo com as novas tecnologias de cunho social, deposito fé na consciência ecológica das novas culturas de consumo e assisto com entusiasmo ao desenvolvimento de novas formas de energia renovável. Mas ainda não me tranqüilizo enquanto não houver mais velocidade nessas mudanças. Para mudar esse mundo precisamos ser rápidos, na velocidade das redes neurais dos meios de comunicação.
Não vejo outro caminho que não o de uma nova comunicação, a comunicação transformadora, que constrói novos saberes, que mobiliza novas frentes coletivas, que conscientiza, favorece a paz, e legitima um futuro coletivo sustentável.

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